Coisas simples

E novamente eu estava sozinha esperando ele chegar, ele sempre atrasava, e eu, como sempre, esperava até ele aparecer. Não que ele não tivesse me alertado, ele até deixou bem claro antes mesmo da primeira vez, não era nem um pouco pontual e não queria que eu pensasse que fosse por minha causa, na verdade, era por mim que ele não atrasava mais que dez minutos. Eu até gostava do atraso, me dava tempo de pensar nele sozinha.
Eu sabia, que ele não atrasava por que queria, e sim porque sua mãe estava doente, ele não gostava de deixá-la sozinha, então tinha que arrumar tudo antes de sair para que ela ficasse bem até o pai dele chegar. Eu achava isso lindo, imaginava se eu também seria assim se minha mãe não tivesse ido embora, se eu também atrasaria toda a minha vida completamente planejada e pontual só para ter certeza de que ela estaria bem.
Perdida nos meus pensamentos nem percebi quando ele chegou, e me assustei um pouco quando senti o toque de seus dedos frios no meu ombro descoberto. Sorri, e fiquei observando seu sorriso por alguns segundos, seus olhos castanhos se destacavam sobre a pele mais clara, e o sorriso completava o pacote, ele não era como aqueles garotos magníficos dos filmes, mas era o bastante pra mim.
- Desculpe o atraso de hoje - ele disse pegando a minha mão.
- Não precisa se desculpar, você sabe que não, além do mais, adoro esses minutos sozinha.
- Prefere eles as nossas longas e chatas horas de estudo? - ele perguntou com um olhar ciumento.
- Lógico que não - eu sorri - Primeiro que duas horas são pouco, segundo, você sabe que essa é a parte menos chata do meu dia - ele sorriu
- Menos chata? Seu dia é tão ruim assim?
Nós dois sorrimos, ele soltou minha mão e tirou a mochila das costas, todos os dias estudávamos na mesma lanchonete já faziam três anos, naquele mesmo lugar ele tinha me pedido em namoro há dois anos, e ali também era o único lugar onde nos víamos desde que o orfanato tinha me mudado de escola havia um ano e meio.
Abri minha mochila que estava ao lado da minha cadeira e coloquei os livros sobre a mesa, ele fez o mesmo. Nosso combinado era o mesmo de sempre, ele era de humanas e eu de exatas, eu tentava ensinar tudo que sabia pra ele, e ele fazia o mesmo, sempre com muito mais paciência do que eu.
Leila chegou trazendo milkshakes de chocolate e batatas fritas, era a mesma garçonete desde o primeiro dia, e nem precisávamos mais pedir, ela já tinha decorado, era quase como nossa cupido, e sempre preparava cupcakes de doce de leite nos nossos aniversários.
Tudo era perfeito, o lugar, as pessoas, o motivo, ele, nada do que reclamar, por mais simples que aquilo parecesse, eu sentia que aquela era a minha casa, e eles a minha família, e era só isso o que me bastava para fazer que eu seguisse em frente, um dia melhor do que o outro.

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